quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O ANIVERSÁRIO



Uma das coisas que me dá imenso prazer é entrar à socapa nas festas de aniversário, sem ser convidada e empanturrar-me de bolos.
Terça-feira passada não resisti à tentação e penetrei numa festa em que o aniversariante fazia cinco aninhos de idade.
Meu Deus, como eu gostaria de ter cinco anos de idade e saber o que sei hoje!
Cheguei e, como boa penetra que sou, fui-me aproximando do local onde estavam concentrados todos os convivas, que é como quem diz, em volta do progenitor da criancinha. Este, agarrado ao seu cachimbo, desdobrava-se em agradecimentos a todos aqueles que o felicitavam pela criança esperta e irreverente de que é o demiurgo.
Sou uma pessoa muito discreta por natureza. Não gosto de dar nas vistas.
De prato na mão, lá fui rondando de grupo em grupo, escutando as conversas deste e daquele.
O progenitor lá andava de cachimbo em punho, exultante, num gesto ritual de descontracção e prazer que, apesar de tudo, requer uma certa destreza, pois não é qualquer um que consegue manter um cachimbo aceso durante o tempo suficiente para apreciar o verdadeiro prazer de o fumar.
Dizia um dos convivas que fumar cachimbo faz a boca torta e tira o brilho dos olhos. Não sei. Nunca fumei cigarros quanto mais cachimbo. Por isso não posso dar a minha opinião. De cachimbo, só aprecio o cheiro perfumado do tabaco.
Fui trincando aqui e ali, até que me dei conta que o meu amigo VTM também tinha penetrado na festa para tirar fotografias. Aproximou-se de mim e eu, com a boca cheia, saudei-o.
Resmungou. Disse-me que não se falava com a boca cheia nem lambuzada. Que para lambuzadores já bastavam os convivas que não pouparam elogios à criança feiinha e hiperactiva, que fazia cinco aninhos de idade.
Amochei!
Olhei-me a um espelho que estava pendurado no salão da festa e cheguei à conclusão de que realmente o VTM tinha razão.
De repente, oiço cantar os parabéns.
Deu-me uma volta ao estômago.
Enjoada, corri para a casa de banho e vomitei.

RECORDANDO...



Por vezes esqueço.
As cálidas noites de estrelas em que apenas as olhávamos.
Os grãos de areia que nos tocavam os pés descalços, nos luares de Agosto. As melodias das ondas que nos salpicavam o sono exausto à beira-mar.
Por vezes esqueço.
Os silêncios que gostavas de guardar entre as palavras que me iludiam a razão.
As lágrimas que sabiam o que fazer para me arrancar um sorriso.
Os dias que se juntaram e fizeram anos desde a última mensagem que hoje reli.
Por vezes lembro. E esqueço.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O VERNÁCULO LUSITANO



Que me perdoem os eruditos mas eu sou mesmo assim. Eu adoro o vernáculo do Norte e não há volta a dar.
Na Cidade Invicta, o vernáculo é uma arte. Nunca ninguém se poderá sentir ofendido com as conotações sexuais de cada palavra, de cada frase.
No Norte, eles acariciam as palavras.
No resto do país, os palavrões são utilizados em situações extremas, para mostrar desagrado por uma situação, ou para insultar alguém que se pretende rebaixar.
No Porto, os palavrões não são obscenos. São uma filosofia e uma arte. São de todos e não apenas de uma elite e servem para exprimir uma sabedoria.
O jogo de metáforas, todas elas referentes ao acto sexual, servem para compreender a vida.
Tudo não passa de um jogo tácito.
Por exemplo, quando dizem que alguém “apanhou no c.”, isso significa que foi vítima de um abuso tão flagrante que nem teve tempo de reclamar. A expressão aplica-se a variadas situações como ter sido despedido, ou ter pago um preço exorbitante por uma compra qualquer. Parte-se do princípio que o sexo anal é um acto de prazer unilateral, que implica a humilhação do sujeito passivo.
Quando dizem “tenho apanhado muito no c.”, querem dizer que já passaram por muito, nesta vida. Se respondem a um pedido ou a uma proposta com a frase “na c. da tua tia”, isso significa sempre uma recusa peremptória do tipo “nem penses!” ou “isso é que era bom!”. Eu, pessoalmente, adoro a frase “nos tomates!”.
Outra coisa que me fascina no vernáculo portuense, são as alocuções “p. que te pariu” ou “filho da p.”. Ambas são inequivocamente negativas, pois pressupõem que a mãezinha do outro seria uma trabalhadora do cabedal, pelo que o interlocutor teria sido gerado durante um acto mercantil.
Mas pelo contrário, ao dizer-se “meu grande filho da p.”, este é um gesto de carinho sem limite, como que a bendizer o indivíduo em causa, por se ter portado como um filho exemplar e merecedor de todo o respeito e protecção da sociedade, apesar de as circunstâncias adversas em que foi criado.
Depois ainda temos a medida-padrão: grande “comó c.”, feio “comó c.”, ou ainda o sentido de posse expresso na frase “é do c.!”.
Que outra palavra haveria, mais adequada, para nos dar a noção de grandeza?
Quando nos apercebemos que vivemos num país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e a justiça estão num caos, os empresários são mafiosos e procuram o lucro fácil em pouco tempo, as reformas são baixas e o tempo para a desejada reforma vai ter de aumentar, pensamos "já me f.!"
Então, só nos resta ter esperança e pensar: Este país ainda vai ser “um país do c.! “.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

ROSTOS



Quando leio o jornal, gosto de ir à página da necrologia. Não sei porquê, não posso deixar de fazê-lo. É superior às minhas forças.
Detenho-me a olhar as fotos. Algumas não estão de acordo com a idade dos falecidos. São fotos de jovens que à primeira vista teriam morrido na flor da idade. Uma leitura mais atenta, porém, denuncia que a idade do “ de cujus” é avançada e que o jovem que vemos na foto, já o foi há muitos anos atrás.
Por qualquer motivo, alguém pegou na primeira foto que apanhou e, sem sentido crítico, numa espécie de marketing fúnebre, colocou o anúncio da praxe: “ Foi Deus servido chamar à sua divina presença…”. Uma sacanice, uma falta de respeito para com o morto.
Enfim, não podemos imputar a responsabilidade aos falecidos. Isso seria exigir demais e, como nós, os vivos, dizemos, paz às suas almas.
Por analogia, debruço-me também sobre as fotos que ilustram os artigos de opinião, nos jornais impressos e on-line. São em tudo parecidas com as dos anúncios da necrologia.
Há vários anos que os retratados exibem a mesma juventude, o mesmo sorriso, a mesma cabeleira farta, o mesmo ar de quem está ali para as curvas.
Ok. Eu compreendo que nem sempre o fotógrafo acerta com o nosso lado mais sensual e que, quando se fica bem no retrato, é a felicidade das felicidades e a tendência é fazer dele um cartão de visita, ao ponto de o utilizarmos "ad eternum", mesmo que as rugas já comecem a instalar-se e o sorriso outrora pepsodent, seja agora desdentado.
Algumas dessas fotos são em tudo parecidas com as da necrologia. São perenes, catatónicas e obedecem quase sempre a uma lógica do sentimento de si próprio, como um exorcizar escatológico do tempo e da razão. Talvez no seu íntimo, no mais profundo do seu ser, o retratado se considere como um Dorian Gray e veja no seu retrato a sua própria sombra como um instrumento de sedução, aquela sedução que já foi e não voltará a ser.
Este é um fenómeno recorrente. Eles e elas são unânimes e contumazes na utilização de fotos antigas, apesar de a legislação portuguesa de identificação civil e criminal prever que as fotografias deverão ter menos de um ano.
Dá-me um certo gozo verificar que há pessoas que não têm a noção do ridículo.
Se eu um dia tiver essa maluqueira, que Deus me faça cair qualquer coisa em cima do toutiço.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

CHATOS DE MERDA!



Acabei de tomar o meu duche e, antes de ir para a cama, resolvo fazer uma incursão pelos blogs de todos os meus amigos virtuais.
Detenho-me à entrada do Barreiro Velho, munida do meu spray insecticida, pois avizinha-se naquele local, uma praga de melgas. Ele é melgas de bicicleta, melgas partidárias, melgas novas, velhas e assim-assim, enfim, melgas para todos os gostos e feitios.
Não entro. Ponho-me a observar o VTM que, de spray em punho, vai pulverizando as ditas, e não posso evitar pensar naqueles outros bichinhos a que vulgarmente se dá o nome de chatos.
Quem alguma vez não esteve frente a frente com um chato de merda?
Imaginem vocês que costumo passar-me dos carretos quando me tocam ao domingo, de manhã cedo, à campainha e verifico que é um grupo de senhoras Jeovas a tentar converter-me, ou um vendedor da TV Cabo, ou alguém a pedir para S. Nunca à tarde. Lógico que a minha vontade seria mandá-los abaixo de Braga, mas a minha índole tolerante fala mais alto do que o meu instinto feroz. Saco das luvas de borracha, visto um avental, pego no espanador e aí vou eu à porta, com o ar mais santo deste mundo, informar que a patroa não está e, por conseguinte, não tenho autorização para falar com ninguém.
Não sou a única. Tenho um colega que faz o mesmo quando vem o guita da esquadra da zona, notificá-lo das multas de estacionamento proibido. Dá-lhe um prazer imenso quando abre a porta e pergunta: -“era só com ele?” - “neste momento, não está. Se quiser, posso transmitir-lhe qualquer recado.”
Bem, eu isso nunca faria, até porque sou conhecida da esquadra. O chefe foi meu colega de escola e eu não teria qualquer hipótese.
Mas voltando ao assunto dos chatos, por que motivo acham que os serviços de atendimento em Portugal, não funcionam? Por que motivo vemos filas e filas nas Finanças, nos Notários, nas lojas do cidadão, nos Centros de Saúde, etc. etc., etc.,?
Graças ao chato de merda.
Nunca vos aconteceu ter um fulano à vossa frente, na fila, a fazer mil perguntas desnecessárias, do género, “tenho de assinar o meu nome no requerimento?”
O resultado é que quem está ao balcão de atendimento deixa-se contagiar pelo chato e quem paga são os outros.
O atendedor torna-se ansioso, malcriado e até agressivo.
Por isso, antes de pedir o livro amarelo para reclamar, pense primeiro e ponha-se no lugar de quem o atendeu.
Vai ver que, antes de si, esteve lá um chato de merda a dar-lhe cabo do juízo.

domingo, 23 de setembro de 2007

A NEURA



Hoje estou como o meu vizinho do Barreiro Velho. Estou com o Amok. Estou com uma neura, que nem sei. Acho que o primeiro que me diga algo que eu não goste, vai levar com aquilo que está acumulado, e que nem eu própria sei bem o que é.
Até nem acordei mal disposta e, até às 10 horas, o dia nem me correu mal. A partir daí foi sempre a descer. Foi o meu vestido que não chegava da costureira, foi a Net que teimou em não querer nada com a minha nova casa, foram coisas que por causa disso ficaram por fazer.
Só faltou mesmo vir o cão do VTM e mijar-me nos pés. Até do trabalho não me largam a molécula. Chamam daqui, refilam dali, favor dacolá, irra. Tirem senha, vão para a bicha, mas não me moam o capacete.
Há dias assim, eu sei, mas também há dias melhores e é desses que eu gosto. Quando sou eu que controlo as minhas coisas. Faço os meus horários, distribuo o meu trabalho pelas diversas fases do dia. Sinto-me frustrada, danada, irada, chateada e outras coisas acabadas em "ada" ou "ida" sempre que me sinto ultrapassada pelos acontecimentos, mesmo que eu não tenha responsabilidades na ultrapassagem.
Se calhar, se me encostasse a uma parede, lhe desse 3 ou 4 murros, chamasse uns quantos nomes feios que o pudor e os bons costumes deste blog não me permitem reproduzir e a seguir fosse fumar um charro e beber um café, descansadamente, se calhar até me aliviava, mas não sou capaz. Arriscava-me a ficar com a fama de ser ainda mais doida do que as pessoas já me acham.
Bem, já desabafei mas os meus colegas voltaram a ligar-me por nada e o outro continua a dar-me música no telemóvel. Desamparem-me a loja. Não conhecem mais nenhum nome?
Há pouco tempo escrevi um post, onde falava sobre Beijos Negros. Meu Deus, que fui eu fazer...
Recebi alguns mails a tratar-me de um modo que não gostei e decidi apagá-los.
Não, não eram daqueles com asneiras, mas sim algumas belas flores deste jardim global que se sentiram atraiçoadas por mim. Diziam que não estavam à espera e tal, que os meus outros posts eram bem diferentes e que de um momento para o outro agora só falava de sexo.
Ora bem, vamos a ver se nos entendemos: eu não sou a Madre Teresa de Calcutá. Eu escrevo para mim e quando criei este blog foi porque estava a passar uns maus dias e precisava de uma terapia assim. Se alguém ler os meus posts e gostar, ainda bem, se não, paciência. Mas não me venham dizer que não devo escrever sobre sexo, porque não tem nada a ver comigo.
Como é que sabem disso? Conhecem-me???

Aos meus leitores que dizem não ao sexo nos blogs, dedico-lhes a imagem com que ilustrei este post.

Inté!

VIAGRA VERSUS PROZAC


Hoje acordei ao som de marteladas, como se estivesse num estaleiro de construção civil. O relógio indicava uma hora não muito própria para estar na cama, já que o dia estava radioso e os passarinhos cantavam lá fora, no jardim. Acresce o facto de ser o dia do segundo casamento da minha amiga “Isabel”. Vou ser a madrinha e, por conseguinte, vou ter de estar radiosa como manda a sapatilha. Por isso, toca a levantar!
Entristecem-me os casamentos. No final da festa fica-nos sempre aquela sensação de vazio, que nunca sabemos interpretar. Será de alegria? Será de tristeza?
Enfim, seja o que for, não é nada de bom.
Dou comigo a lembrar-me da Isabel e do seu divórcio, do qual fui mandatária.
Recordo quando tudo teve origem, no dia em que ela celebrou o 20º aniversário de casamento. Na verdade tinham pouco que celebrar. Quando chegou à altura de relembrar a noite de núpcias ele trancou-se na casa de banho e chorou. Nesse dia, contou-lhe o seu grande segredo: estava impotente e queria que ela fosse a primeira a saber. Grande novidade, ele realmente pensava que ela ainda não sabia.
Aquele casamento estava mal. Uma mulher tem as suas necessidades. Um dia vi-a a olhar uma foto de um quadro do Kirapintor, aquele que tem umas estacas levantadas, e a desatar a chorar.
Ficou entusiasmada quando leu no jornal que havia uma nova droga no mercado que podia resolver o problema. Chamava-se Viagra. Ela disse-lhe que se tomasse esse medicamento, as coisas poderiam ser como na lua de mel. Realmente pensou que poderia resultar. Ele então substituiu o Prozac pelo Viagra, na esperança que levantasse algo mais do que o entusiasmo.
Foi uma benção dos céus.
A vida começou a ser maravilhosa para eles, apesar de ser um pouco complicado ela escrever enquanto ele fazia "aquilo".
O Viagra começou a subir-lhe à cabeça (sem segundas intenções). No restaurante o empregado perguntava à Isabel se estava a gostar da carne e ele pensava logo que se estava a referir a ele. Mas ela confessou que, apesar de tudo, foi muito bom. Nunca foi tão feliz.
Acho que ele começou a exagerar na dose de Viagra aos fins de semana. Ela ficava um pouco dorida nas partes baixas e deixou de ter tempo para escrever, porque ele apanhava-a.
Ok, ela chegou a admitir no Tribunal, que se escondia dele. É que não há mulher que aguente tanto e, para piorar as coisas, ele andava a tomar os comprimidos com Whisky. O que havia ela de fazer? Estava toda moída.
Estava praticamente a ser comida até a morte. Era o mesmo que ir para a cama com um Black&Decker. Acordou uma manhã colada à cama, até os sovacos não escapavam, ele era um grandessíssimo animal.
Quem lhe dera que ele fosse bicha. Deixou de se maquilhar, tomar banho, lavar os dentes, mas mesmo assim ele ia atrás dela. Até bocejar era um perigo.
De cada vez que fechava os olhos lá vinha mais um ataque. Estava a viver com um míssil Scud. Já mal conseguia andar. Jurou-me que se ele viesse outra vez com aquela história do "Olá, com licença", matava o sacana!
Fez de tudo para ele a deixar em paz, mas nada resultou. Chegou a vestir-se de freira, mas ainda foi pior.
Pensei que ela acabaria por matá-lo. Eram umas dores infernais quando se sentava. O cão e o gato fugiam dele e os amigos nem se atreviam a aparecer lá em casa.
O sacana queixava-se de dores de cabeça, quem lhe dera a ela que explodisse. Ela sugeriu-lhe que largasse o Viagra e voltasse a tomar o Prozac.
Finalmente resolveu mudar de comprimidos, mas parece que não fez efeito.
Um dia o Prozac começou finalmente a fazer efeito. O filho da mãe passava o dia inteiro sentado em frente à TV, com o controlo remoto na mão à espera que ela lhe fizesse tudo. Ah! Que vida maravilhosa.
E assim terminou um casamento e eu ganhei uma cliente.
Hoje vou vestir-me de dourado transparente.
Espero que a Isabel seja feliz.

sábado, 22 de setembro de 2007

A DOR E O GRITO


Hoje acordei na minha casa amarela, no seio do Barreiro Velho, esse bairro maldito para tantas pessoas que já se esqueceram do tempo e das memórias e mataram a saudade, enterrando-a em preconceitos.
Cheguei, mas partirei em seguida, porque há coisas a que nunca poderemos fugir, por muito que desejemos fazê-lo.
Não sei porquê, acordei com uma tremenda enxaqueca. Há muito tempo que não tinha uma enxaqueca.
Não conseguia raciocinar nem tampouco levantar a cabeça da almofada.
Meti-me num táxi com a minha receita SOS e rumei à primeira farmácia de serviço, que encontrei. O mundo girava à minha volta, tremelicando por todos os lados, bruxuleando como a luz de um pedaço de vela. E as náuseas malditas, essas, não me largavam o corpo. Apetecia-me gritar. Uma sensação, grande, de desconforto e insegurança tomava, pois, conta de mim.
Para minha irritação, quando entrei, tinha duas mulheres à minha frente.
Sentei-me.
A primeira pediu Trifene. Bufei. Resfoleguei como os búfalos que me conheceram pequenina, lá longe, nas anharas de Angola. Uma dor menstrual tem lá comparação com a sensação de ressaca provocada por uma enxaqueca!
A segunda mulher pediu palmilhas de silicone, anti derrapantes para os sapatos. Aí não aguentei e reclamei que aquilo era uma farmácia de serviço, não uma sapataria.
A farmacêutica, do outro lado do balcão, insolente, disse-me para esperar.
Meu Deus, como tive saudades, tantas, daquela empregada do senhor doutor, a tal Teresa, tão simpática, tão subserviente, tão senhora doutora para aqui, senhora doutora para acolá.
Encolhi-me. A empregada demorou imenso tempo a mostrar palmilhas de silicone à velha que estava à minha frente.
E eu ali a morrer devagarinho.
Por fim, lá se dignou a atender-me.
Quando viu a minha receita, olhou-me em silêncio.
Eu olhei-a de volta, prestes a desfalecer.
Mal saí da farmácia meti um comprimido à boca.
Passados poucos minutos, o mundo parou de tremer e eu voltei a ser Eu.

SENTIMENTOS E AFECTOS



Era uma vez uma ilha onde viviam todos os sentimentos: a Alegria, a Tristeza, a Sabedoria e todos os outros afectos. Um dia os moradores foram avisados que aquela ilha iria afundar e todos eles se apressaram a deixá-la.
Pegaram nos seus barcos e partiram. Mas o Amor ficou, pois queria ficar mais um pouco com a ilha, antes que ela afundasse. Quando, por fim, estava quase a afogar-se, o Amor começou a pedir ajuda. Nesse momento passava a Riqueza, num lindo barco. O Amor pediu-lhe :
- Riqueza, leva-me contigo.
- Não posso. Há muito ouro e prata no meu barco. Não há lugar para ti.
Pediu ajuda à Vaidade, que também ia a passar.
- Vaidade, por favor, ajuda-me .
- Não posso ajudar-te , Amor, estás todo molhado e poderias estragar o meu barco novo.
Então, o Amor pediu ajuda à Tristeza.
- Tristeza, leva-me contigo.
- Ah! Amor, sinto-me tão triste, que prefiro ir sozinha.
Também passou a Alegria, mas esta estava tão alegre que nem ouviu o Amor chamá-la.
Já desesperado, o Amor começou a chorar. Foi quando ouviu uma voz chamar:
- Vem Amor, eu levo-te!
Era um velhinho. O Amor ficou tão feliz que se esqueceu de perguntar o nome dele. Quando chegou ao outro lado da praia, perguntou à Sabedoria.
- Sabedoria, quem era aquele velhinho que me trouxe aqui?
A Sabedoria respondeu:

- Era o TEMPO.

- O Tempo? Mas por que só o Tempo me quis trazer?

- Porque só o Tempo é capaz de entender o "AMOR".

GO WEST

HOJE ACORDEI NA MINHA CASA DO BARREIRO, COM VONTADE DE IR PARA OESTE.

"Together we will find a way".

Will you come with me?

I'm waiting for you.

We shall dance!

I know you love me. I love you too.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O CHOQUE TECNOLÓGICO



Mentira!

Grande Mentira!

José Sócrates não foi nada a um safari no Quénia.

Foi ao Quénia inspirar-se no choque tecnológico.

Lá teremos que gramar agora as consequências.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

PENTA CAFÉ


Hoje fui dar um passeio com o meu amigo VTM. Apesar de tudo, ele é um homem tímido, pouco conversador e muito curioso. Extremamente curioso. Mas eu já estou habituada à curiosidade das pessoas e nunca levo a mal quando me fazem perguntas, por muito indiscretas que as considere.
Respondo sempre a todas as perguntas, apesar de muitas vezes tentar esquivar-me delas. Sou um bocado compulsiva.
Não sou de muitas intimidades. Gosto de manter distância quanto baste. Mas há quatro pessoas no Barreiro a quem gosto de “dar o braço”, enquanto passeio, calmamente, pelas margens do rio, conversando e discutindo pontos de vista. São elas o meu tio João, o Kira , o VTM e o Dr. Carlos Correia, a quem baptizei de “Mecinho Dr. CC”. São muito ternurentos e são o tipo de pessoas que nos transmitem segurança e tranquilidade.
O meu amigo VTM é muito ciumento. É uma faceta dele posta a descoberto pela polémica do Mercado Marquês de Pombal. Ficou com receio de que eu, a quem considera a sua secretária virtual, me bandeasse para os lados do Dr. Cabós Gonçalves.
Lá tive uma trabalheira monumental para o convencer de que tal seria impossível, porque tenho um contrato de trabalho que me obriga a exclusividade. Sou uma escrava da globalização. Sou como uma prostituta. Escorrem-me o cérebro, pagam para o usar e estou à disposição de qualquer caçador de cabeças que me pague bem para ser boa e até excelente, se for preciso.
Lá fomos caminhando paulatina e silenciosamente pela Avenida da Praia. De repente, o meu amigo VTM disse-me: “Que raio de nome lhe puseram!”.
Fiquei surpreendida porque não o julgava ser pessoa para comentar esse tipo de coisa: o nome. Todos nós somos vítimas, logo quando nascemos, desses exemplos de sublimação que se consubstanciam nos nomes que por vezes damos às crianças. Eu não escapei dessa. O meu nome resulta de uma coisa desse género. Não o considero dos piores, apesar de me sentir embaraçada quando me trocam o apelido ou o estilizam à boa maneira telenovelesca, agora tão em voga. Aí, sim. Fico possessa!
Enquanto caminhamos, vamos dando conta dos nossos pontos comuns e chegamos à conclusão que ambos fomos cuspidos do inferno.
O Diabo não nos quis lá. Era dose a mais, a Verdadeira e o VTM, juntos no mesmo inferno.
Voltámos como dois anjos e pairamos por aí, despertando ódios e paixões. Diz ele que, ou nos amam ou nos odeiam. Não há meio termo para nós.
Falámos de bruxas, de duendes e de Alburrica. Da lama de Alburrica e das “lamejinhas”, paraíso secreto do olheiro e dos outros.
Falámos dos ciganos, o nosso ponto de desencontro. Mas apesar de tudo concordámos: eu vejo os ciganos de uma forma branda, porque sou mulher e as mulheres são brandas por natureza. Ele vê os ciganos porque estes são e serão sempre ciganos.
“Você anda estranha, confesso.” – disse-me ele, ao mesmo tempo que olhava para mim, tentando adivinhar os meus pensamentos.
Eu, como sempre, furtando-me às directas, respondi à laia de desafio: “Vai um chocolate quente no Penta Café?”

PARA O KIM



Dia 13 de Outubro, cá te espero para almoçar.

Espero que não leves o teu pessoal para desembarques na praia dos tesos, só para veres os "borrachos".

Fico com ciúmes.

Bom regresso até Vale de Zebro.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

SALDONHA



Saldonha é uma pequena freguesia que dista 20 Km de Alfândega da Fé.Tem 157 habitantes porque o 158.º é um grandessíssimo filho da mãe, que emigrou para o Barreiro, para mal de muitas pessoas de bem.

Gosto imenso de turismo de habitação. A Casa do Poeta, em Saldonha, é um exemplo do que poderia ser feito noutras localidades do país, com potencialidades para aquele género de turismo.

É lá que passo férias e alguns dos meus poucos tempos livres, sempre acompanhada de um bom livro e de bons amigos. Gosto de passear nos arredores. Gosto de respirar o ar puro e conviver com as suas gentes boas e sãs.

Na imagem, o quarto onde costumo ficar.

É um hino à tranquilidade.

Se puderem, vão até lá e não se arrependerão.

sábado, 15 de setembro de 2007

DOCES RECORDAÇÕES



A cidade chove as primeiras lágrimas de Outono, lágrimas que eu evito a custo.
As palavras já perderam há muito o hábito de conversar connosco. Habita-nos este silêncio que nos consome e respira o nosso ar, até à lenta asfixia em que sobrevivemos.
Vou caminhando pelas ruas onde me perco em cantos e recantos que conheço de cor e paro. Da rua vejo a tua sombra gigante reflectida nas paredes do teu quarto que já foi nosso, por instantes, e sinto um desejo enorme de subir para me despedir de nós. Oiço o vento que traz até mim a música que escutas e que era a nossa e danço sozinha no passeio, uma dança demente, sem nexo.
Doce melancolia. Um dia voltei e disseste-me que pensavas que eu já tinha morrido. Mas eu ressuscitei e estava ali ao teu lado, como sempre estive em pensamento e queria estar.
Confessaste-me os teus amores, os teus medos e as tuas desilusões como sempre fazias, quando éramos crianças e eu ainda era viva para ti.
Comprei champanhe e morangos e convidei-te para jantar na minha nova casa e recusaste. Deitei fora os morangos, o jantar e arrumei a garrafa junto às velharias que ofereci. E fiquei só. Toda a noite aquela coruja piou como que a lamentar-se por mim e eu adormeci sem ti.
Não sei quando morri. Apenas sei que já não sou eu e, por isso, vou partir. Um dia deixei tudo por ti mas, apesar de tudo, fiquei só. Foi para ficar contigo, se ainda me quisesses. Tu não quiseste.
Mas que me importa? Valeram aqueles momentos e ficaram as boas recordações.
Já tudo foi dito entre nós. O que ficou por dizer, vou guardar para o meu último instante e esperar que me oiças.
Até lá, levantarei o meu olhar silente à tua passagem anónima por esta ausência a que gosto de chamar vida.
Um dia, talvez, quem sabe, ainda chame por ti, se me lembrar do teu nome...