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Ultimamente tenho-me lembrado imenso do Negage.
Foi no Negage que fui surpreendida pelo maior bife que já comi em toda a minha vida.
Angolana de Benguela, residente no Uíge, naquele dia fiz as delícias do dono de um restaurante e de alguns clientes, a maior parte militares, que viram na jovenzinha que eu era, na altura, uma oportunidade de dar azo ao seu sentido de humor e ao seu espírito marialva.
Ao sentar-me e perguntar o que seria o almoço, o dono do restaurante respondeu-me que só havia bife. Ora eu que gosto de bifes, encomendei um bife com batatas fritas. O Senhor olhou-me com ar de gozo e perguntou-me se eu era mesmo capaz de comer um bife inteiro.
Entendi que a pergunta teria um quê de brejeirice, mas como era e sou moçoila afoita, não me "descosi" e disse que sim, que era capaz de comer um bife inteiro. Por que não?
O que eu não sabia era que aquele bife do Negage era famoso em Angola inteira.
Aquilo não era um bife. Era quase um boi inteiro.
Mas eu não me desmanchei. Fiz de conta que não fui surpreendida e comi o bife todo, para admiração de todos os presentes, que achavam que eu iria enjeitar o desafio.
Tenho saudades do Negage.
Recordo com saudade o João Ferreira, figura incontornável da zona. Era um português degredado, que construiu um Império a pulso.
Andava sempre mal vestido, quase andrajoso e conta-se que um dia não o deixaram entrar num hotel em Luanda, por esse motivo. O "Ferreira do Negage", como era conhecido, foi saber a quem pertencia o Hotel, comprou-o e despediu o gerente e o recepcionista que o escorraçaram.
De outra vez, foi pedir um empréstimo ao BCA e o gerente, que não o conhecia, mandou chamar a polícia para o pôr fora do Banco. Ele identificou-se, o gerente ficou estarrecido e ele levantou o dinheiro todo que tinha naquele banco e fundou, ele próprio, o BCCI.
Apesar de rico, era uma pessoa muito afável e simples.
Hoje doi-me saber que aquilo que ele criou em Angola, foi completamente destruído.
Onde outrora havia fartura, campos cultivados e produtivos, hoje há fome, miséria, doença.
"Eles comem tudo e não deixam nada".
Ninguém no Mundo tem a noção daquilo que foi o 27 de Maio de 1977, em Angola.
A "purga" angolana, lamentavelmente, não figura nas denúncias dos crimes contra a Humanidade.
Não existe nenhum relatório de nenhum organismo internacional, defensor dos Direitos Humanos, que refira aquilo que foi a actividade perversa e tenebrosa do regime político de Agostinho Neto e seus seguidores.
Não há certidões de óbito e os familiares desconhecem o paradeiro dos restos mortais dos seus entes queridos.
O acesso aos documentos oficiais nem sequer é autorizado e, ao que tudo indica, jamais irá ser feita JUSTIÇA.
Tudo isto, como é evidente, gera impunidade e dá aos criminosos a certeza de terem saído vitoriosos.
"Quando ontem ao fim da tarde, abri um mail proveniente de Angola que recebera de um amigo também sobrevivente, lendo de um fôlego o anexo que este me enviara, por momentos pensei que finalmente tinha à minha frente um testemunho com a grandeza de um Prémio Camões. O título não parecia enganar: “Pepetela farto do silêncio do MPLA”.
Depois de lê-lo e relê-lo, acabei por me comover finalmente, ao imaginar o sofrimento de Pepetela com todo esse silêncio de 30 anos do MPLA. Afinal, ele apenas ajudara a “seleccionar depoimentos elucidativos” para serem transmitidos pelos democráticos “órgãos de informação” controlados pelo MPLA em 1977.Como poderia então agora, revelar o mínimo arrependimento pela sua conduta na altura, quando aqueles depoimentos que ajudara a seleccionar, foram todos espontâneos e obtidos sem qualquer tortura ou intimidação moral ou física. Não, ele com a sua experiência de velho guerrilheiro no MPLA de nada suspeitara. Afinal, do que acontecia nos gabinetes ao lado de onde vinham as gravações, nem sequer lhe chegara um som longínquo. Não tinha culpa de o porem a trabalhar no Ministério da Defesa onde estavam todos aqueles senhores que nem conhecia.
As pessoas que de “viva voz” falaram perante ele e dos seus colegas de comissão, não aparentavam o mínimo sinal de maus-tratos e muito menos de torturas prévias, ou de qualquer outra espécie de coacção sofrida. Nada naquele cenário tinha sido montado ao “bom estilo maoista da revolução cultural chinesa”, que lhe pudesse ter despertado a menor das suspeitas. Seriam também, os integrantes da referida comissão a que Pepetela confessa agora ter pertencido (“mais de uma dezena de pessoas”), pessoas sensatas, honestas e que serviam desinteressadamente como ele o MPLA? Isso ficamos sem saber, mas certamente que sim, pois senão a dúvida ter-se-ia logo apoderado dele.
Pepetela, poderá então dormir tranquilo, já que afinal nada fez que o comprometesse com a repressão ao chamado ”Golpe de Estado de 1977 em Angola”, e portanto nada haverá que lhe possa tirar o sono ainda hoje.
Estranhei contudo que demorasse 30 anos a perder definitivamente a paciência e a confiança no MPLA. Não li ainda “Predadores”, o seu último livro, mas confesso que gostei de muitos dos que li, em que as suas histórias e personagens nos têm sido apresentadas, se calhar apenas na medida da sua falta de paciência em cada momento. Das histórias que li, deu também para perceber que ao serem baseadas em factos da vida do MPLA e de Angola, os que conhecem a terra e as elites Angolanas sabem que sem eles “Pepetela” não existiria. Pode ser que com paciência ainda vejamos no prelo o seu último livro “PEPETELA CONTA TUDO” .
José Fuso
Sobrevivente do 27 de Maio de 1977"
Recentemente, houve o testemunho de um militar de nome João Kandada, a residir em Espanha, que assumiu o ónus de ter fuzilado Nito Alves, sob as ordens de Iko Carreira, Onambwe e Carlos Jorge e que o corpo foi amarrado com pesos e atirado ao mar, para se afundar.
O 27 de Maio de 1977, foi um momento negro da história de Angola, nessa altura já fora do domínio de Portugal.
O mínimo que poderá ser feito, é dizerem onde estão os corpos e permitirem às famílias exumar os restos mortais, para poderem enterrar os seus mortos condignamente, ainda que já sejam passados 33 anos.
Onde estão as certidões de óbito de todos os que foram executados?
Para quando a punição de todos os canalhas assassinos que tomaram parte no hediondo massacre?
" Em Portugal, poucos saberão quem foi Sita Valles, uma jovem revolucionária fuzilada há 33 anos, em Angola.
A sua memória continua viva entre as gerações de estudantes universitários que a conheceram e com ela privaram, no início dos anos 70, sobretudo nas Faculdades de Medicina de Lisboa e de Luanda.
Foi uma grande líder do movimento estudantil da época, que tive o grato prazer de conhecer.
Sita Valles teve uma vida muito breve (1951-1977), mas intensa.
Era uma humanista e desde que tomou consciência das injustiças do mundo, não mais deixou de ser uma activista política a quem todos reconheciam um grande espírito de solidariedade e de missão. Muito activa, quer na clandestinidade, quer em democracia, ela lutou sempre por uma sociedade melhor.
Nascida em Cabinda, quando o enclave ainda pertencia a Portugal, depois da independência, optou pela nacionalidade angolana.
O 25 de Abril de 1974 surpreendeu-a quando estudava Medicina em Lisboa. Movida pela paixão e pelo voluntarismo que a caracterizavam, regressou à que pensava ser a sua pátria, durante o então chamado Verão quente.
Em má hora o fez. Acabou por ser acusada, sem direito a defesa, de ser um dos cérebros da alegada tentativa de golpe de estado de 27 de Maio de 1977. Foi fuzilada juntamente com o seu marido Zé Van-Dunem e o activista Nito Alves, no dia 1 de Agosto desse ano. Agostinho Neto, o poeta, assinou a sua condenação e a ordem de fuzilamento.
Desde então, várias perguntas ficaram sem resposta.
Diz-se que Sita Valles, ou o que restava dela, foi fuzilada às cinco da manhã daquele dia, primeiro com um tiro em cada perna e depois um tiro em cada braço. Recusou ser vendada. O corpo caiu na vala comum previamente aberta, antes de desferido o disparo mortal. Um tractor aplainou depois o terreno.
Antes, e apesar de estar grávida, foi torturada e violada pelos homens da Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA), a polícia política do regime.
Diz-se também que a bela, elegante e inteligente comunista de origem goesa, se manteve rebelde até ao último momento. Dizia que não tinha medo e que quanto mais depressa a matassem, melhor. Ao recusar ser vendada, obrigou os atiradores do pelotão de fuzilamento, a enfrentarem o seu olhar, antes de dispararem.
A Sita Valles, militante do Partido Comunista em Portugal e do MPLA em Angola, é hoje um nome maldito para ambos os partidos e a sua vida quase um mistério em ambos os países. Acusada de ser um dos cérebros do chamado “golpe Nito Alves”, em 27 de Maio de 1977, seria presa em Luanda, violada e torturada e, três meses depois, sumariamente executada.
Ainda hoje não se sabe onde estão enterrados os restos mortais de Sita Valles, do marido, do seu irmão Ademar, assassinado em 1978, e de um número indeterminado de vítimas, entre 20 mil a 80 mil pessoas que desapareceram, incluindo muitos portugueses, um dos quais antigo ministro de Spínola.
Um cidadão angolano, recentemente falecido na margem sul, e que exercia, ao tempo, as funções de coveiro em Luanda, contou que Sita Valles e os companheiros de infortúnio, foram fuzilados contra o muro do cemitério novo de Luanda, sendo que alguns deles ainda estavam vivos,quando foram sepultados.
Sita Valles era uma católica fervorosa e continua a ser tabu no país que escolheu como seu, onde as circunstâncias da sua morte a transformaram num mito.
Antigos colegas, hoje médicos, recordam-na pela sua coragem e espírito destemido e abnegado. "
Em 1975, apesar de ser militante do PCP, decidiu regressar a Angola para ajudar o MPLA no conflito com a FNLA e a UNITA. Após a independência, o seu percurso começa a divergir até culminar nos macabros acontecimentos de Maio de 1977.
Deixou um filho bébé a quem chamou “Ernesto” em homenagem a “Che Guevara”, que é hoje um homem e reside em Lisboa com uma tia.
Que o Ernesto um dia exija saber toda a VERDADE e desmascare os algozes dos seus pais e tio. Olho por olho, dente por dente.
Para todos os Angolanos de bem, esta história brutal, tornou-se num mito de uma geração.
Descansa em Paz Sita Valles!
Um dia eles vão pagar.
Muxima ue ue,
Muxima ue ue, muxima
Muxima ue ue,
Muxima ue ue, muxima
Se uamgambé uamga uami,
Guangui beke muá santana.
Se uamgambé uamga uami,
Guangui beke muá santana.
Muxima ue ue,
Muxima ue ue, muxima
Muxima ue ue,
Muxima ue ue, muxima
Se dizes que sou feiticeiro
Leva-me então a Santana
Se dizes que sou feiticeiro
Leva-me então a Santana
Kuato dilagi mugibê,
Kuato dilagi mugibê,
Kuato dilagi mugibê,
Lagi ni lagi kazókaua.
Kuato dilagi mugibê,
Kuato dilagi mugibê,
Kuato dilagi mugibê,
Lagi ni lagi kazókaua.
Muxima ue ue,
Muxima ue ue, muxima
Muxima ue ue,
Muxima ue ue, muxima
A palavra "muxima" quer dizer coração em kimbundo.
Esta música fala de Nossa Senhora do Coração dos Angolanos.
É um hino do nosso País, porque nós, Angolanos, temos um coração do tamanho do Mundo.
Para os amigos, que são muitos, envio beijokas com o sabor que mais gostarem.
Estarei contactável por e-mail, por telemóvel e por sms.
Sempre que precisarem de mim, gritem que eu estarei lá.
Deixo-vos uma chuva de estrelas e que cada uma delas seja um desejo cumprido.
Até Sempre!
Levo-os a todos no meu "muxima".
É preciso saber quando uma etapa da nossa vida chega ao final, porque se insistirmos em permanecer nela, mais do que o tempo razoável e necessário, perderemos todas as oportunidades e o sentido da vida.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos, não importa o nome que damos, o importante é deixarmos no passado, todos aqueles momentos que se esgotaram e que já não nos servem mais.
A vida sempre foi um jogo que se pode ganhar ou perder, dependendo das cartas com que jogamos.
Neste tempo de crise que nos tem afectado a todos, de diferentes maneiras, há os que vêem o seu ciclo mudar bruscamente, ou porque perderam o emprego, ou tiveram de emigrar, ou porque perderam um amor ou uma amizade que, apesar de longamente cultivada, desapareceu ou morreu sem deixar rasto.
Essas pessoas vítimas das circunstâncias, poderão passar muito tempo a tentar compreender e a perguntar o motivo por que tal aconteceu às suas vidas.
Poderão até dizer para si mesmo que não darão mais um passo enquanto não entenderem as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas para si, serem subitamente transformadas em nada.
Mas tal atitude será um desgaste imenso e levará à estagnação ou a um estado tanatológico e depressivo, que lhes trará grande sofrimento, porque todos à sua volta, neste princípio de ano, estarão ocupados a encerrar capítulos, virando a página e seguindo em frente.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos compreender todas as coisas que vão acontecendo connosco.
Tudo o que passou não voltará jamais. Não podemos ser eternamente crianças ou adolescentes tardios, nem tão pouco amantes compulsivos, revivendo dias e noites de relações sem futuro. As coisas passam, e o melhor que temos a fazer é “abrir a porta” e deixar que elas realmente se diluam no vento.
Por isso é tão importante , por muito doloroso que seja, quebrar ciclos, destruindo recordações, mudando de casa, hábitos, reformulando pensamentos e acções.
Tudo o que nos rodeia neste mundo, é uma manifestação daquele outro mundo invisível que é o nosso coração e desfazermo-nos de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras possam ocupar o seu lugar.
O meu lema sempre foi: deixar ir embora, soltar. Não somos donos de nada nem de ninguém.
Nunca esperei que me retribuissem nada ou que reconhecessem o meu esforço, a minha capacidade intelectual, o meu mérito, nem que entendessem o meu amor.
Há muitos anos atrás, desliguei a minha televisão emocional e parei de ver sempre o mesmo filme , porque isso apenas me envenenava e nada mais.
Constatei sempre que não há nada mais perigoso que adiar tudo sistematicamente em nome do “momento ideal”. Antes de começarmos um novo capítulo, é preciso encerrarmos o antigo, dizermos para os nossos botões que o que passou, jamais voltará e que nada é insubstituível. Um hábito não será forçosamente uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode ser difícil, mas é muito importante o conselho que deixo aqui: nunca tenham medo de encerrar ciclos.
Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas apenas porque devemos acabar com tudo aquilo que já não se encaixa na nossa vida.
Fechemos a porta, mudemos o disco, limpemos a casa, sacudamos a poeira, para bem de nós próprios.
O "baile" terminou.
Passei aqui momentos muito gratificantes da minha vida.
Um dia talvez volte aqui, com outro tema e um outro formato.
Quem sabe...
Eis-me de volta, apenas para me despedir dos muitos amigos que tiveram a pachorra de me ler e comentar ao longo dos últimos três anos.
Estive naquele que é o meu País, onde um dia serei sepultada, debaixo de uma mulemba.
Estes últimos quinze dias, preencheram-me a alma e fiquei com a certeza que voltarei sempre.
Voltarei às chanas e às anharas, às mololas e aos muxitos, ao Maiombe e aos sons da mata, ao rio Chiloango, Bentiaba e Pirangombe, ao Bengo e ao Catumbela, África minha.
A foto é do letreiro que mais se vê em Angola, principalmente no Norte. Foi tirada à ida para o Dinge, uma povoação a 80 km de Cabinda, a caminho do Chimbete.
São seis e meia da tarde e aproxima-se a hora em que terei de estar no Aeroporto, para fazer o check-in, em direcção a terras de África.
Acho que todos vocês já perceberam que nos últimos tempos este meu blog não tem sido actualizado da mesma forma que o era, quando o iniciei.
Por falta de tempo e até de disposição, nos últimos meses só me tem sido possível colocar um "post" de vez em quando. Sempre fiz questão de manter no blog um padrão de qualidade, com coisas interessantes, humor, arte e muitos assuntos polémicos.
Ultimamente não tenho conseguido dedicar-me o quanto queria, para manter a qualidade que vocês, leitores do blog, merecem.
Por isso, optei por suspender, "sine dia", todas as minhas actividades de bloguista militante, pelo menos enquanto durarem as minhas férias de Natal, até ao próximo ano.
Tive a oportunidade de nestes dois últimos anos partilhar convosco algumas angústias, alegrias, todas as coisas de que gosto, alguns momentos felizes e outros menos felizes, rir e divertir-me com opiniões de todos os tipos.
Li sempre com muito carinho todos os comentários que me têm deixado, que não foram assim tão poucos. Foram mais de 3 mil e se há algo de que não me posso queixar, é da falta de comentários que sempre deixaram aqui.
Fico extremamente feliz por saber que, de alguma forma, fiz parte de pelo menos alguns minutos da Vossa vida.
A Vossa participação também foi muito activa, seja através dos comentários ou dos diversos e-mails e sms que também tenho recebido diariamente.
Não é uma tarefa fácil escrever “o último post”. Por isso vou adiar e considerar que se tratará apenas de um período de reflexão, até ao meu regresso.
Queria escrever tanta coisa, mas as palavras acabam por fugir.
Espero ter sido uma boa companhia. Não é uma despedida, porque ficam as lembranças de bons momentos que jamais irei esquecer.
Estou em período de conquistas, de crescimento pessoal e de felicidade. O ano de 2010 vai ser para mim o ano de todos os desafios e vai exigir da minha pessoa tudo aquilo que eu puder dar.
Agradeço imensamente a participação e colaboração de todos vós.
Sinto-me realizada por ter tido a oportunidade de fazer um blog onde dei tanto de mim a todos os meus amigos.
Obrigada por tudo!
Para todos, os meus votos sinceros de FELIZ NATAL e um BOM ANO 2010.
Até um dia.
E com ele as minhas ambicionadas férias até ao início do próximo ano.
Não é segredo para ninguém que não gosto do Natal. Nunca gostei desta quadra festiva, da mesma forma que odeio estar deitada a ouvir o vento a uivar nas árvores e a chuva a caír nos telhados, tamborilando uma música que não apetece cantar.
Sou do contra. Sempre fui do contra, embora não me considere uma pessoa difícil.
Quando oiço alguém dizer que gosta de ver a neve a caír, enquanto está sentado ao calor de uma lareira aconchegante, não consigo reprimir um sentimento que é um misto de repulsa e de indignação, porque aqueles que assim pensam, não querem saber se há pessoas a dormir e a viver nas ruas, debaixo das pontes, sem ter um fogo ou um agasalho que lhes faça sentir que também são filhos de Deus, do tal Deus elitista que não protege todos aqueles que necessitam Dele.
Por isso procuro sempre afastar-me o mais possível das convenções e viver a época de acordo com aquilo que penso e sinto.
Amanhã, por esta hora, partirei para passar o Natal na terra que me viu nascer.
Durante esta semana fui fazendo as malas, para não me esquecer de nada. Fui à FNAC comprar os três livros que vou levar para os próximos quinze dias. Um deles, do meu escritor preferido, António Lobo Antunes, "Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?".
Claro que não resisti a lê-lo durante a noite passada. Comecei pela introdução, pensando que seria capaz de o largar, para continuar a lê-lo quando chegasse a Luanda. Mas foi mais forte do que eu.
Soberbo, simplesmente soberbo! De todo o melhor livro dele, até aos dias de hoje.
A partir de um verso de uma canção de Natal, "Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?", a escrita de Lobo Antunes surge-nos a partir do silêncio, do escuro e faz-nos permanecer nele, deixando-nos um vazio cá dentro que nos impede de continuar a leitura até conseguirmos encontrar-nos de novo.
As duas frases muitas vezes repetidas ao longo da trama, como se fossem um estribilho, o facto de ter dividido o livro em capítulos, de acordo com a evolução de uma tourada e aquele personagem de filho bastardo, de quem ninguém sabe o nome, que não pode ser apresentado às visitas, torna esta obra única de entre todos os livros do escritor.
Não trata o leitor por estúpido e ao apresentar-se desta forma mostra-nos a nós próprios, os nossos diálogos interiores com a consciência. Eu senti, a dada altura, que era uma das personagens.
Assim como Beckett construía a partir do nada, do corpo vazio, a escrita de Lobo Antunes surge-nos a partir do silêncio, do escuro e faz-nos permanecer nele.
Neste livro, o Autor retrata-nos nos momentos de solidão, de silêncio, do escuro, a vida no seu estado puro. Mente, brinca e leva-nos ao sabor das palavras.
Adorei. Vou ter de comprar mais um livro para levar, porque, este, eu já o li.
Quando comecei nas lides bloguísticas, fi-lo apenas como terapia ocupacional, enquanto estive internada num hospital do Norte, vítima de acidente vascular cerebral que me deixou muito poucas sequelas, graças a um trolha ucraniano, que por acaso era médico e estava no sítio certo, à hora certa.
Logo da primeira vez que entrei na net, e digitei "Barreiro Velho", cidade onde os meus avós me deixaram um legado e onde nasceram e moram grande parte dos meus tios e primos, dei de caras com o meu Bizinho do peito e logo se gerou uma empatia que só muito mais tarde viria a compreender.
Estivemos juntos no mesmo inferno. O Diabo não quis que lá ficassemos os dois juntos, porque era dose demais, a Verdadeira e o Conde do Barreiro Velho, juntos.
Bizinho, já lá vão quatro anos e espero que muitos mais se lhes sigam, com a sua assertividade e a sua luta pela reabilitação do Centro Histórico da cidade, para que o Barreiro seja uma cidade que todos possamos desfrutar como uma verdadeira cidade e não como um subúrbio de Lisboa.
Beijokas para si, com sabor a filhós de Natal e bolas de manteiga.
CHEERS!
Em determinada altura da minha vida era raro o mês, quinzena, semana ou dia, que não tivesse casamentos, baptizados, velórios ou até divórcios.
Habituei-me a considerar todos esses momentos como parte integrante do meu estatuto de animal social, e a tirar partido deles, na aprendizagem que fiz sobre o teor dos apêgos e afectos.
A semana que passou, foi a semana dos velórios. Os pais e mães de alguns colegas e amigos, resolveram desistir de viver. Uns mais idosos, outros mais jovens, lá foram percorrendo o caminho que a todos espera, até à eternidade.
Nos vários velórios, foi ponto comum o facto de dizerem: "coitado, morreu no dia a seguir à filha ter vindo visitá-lo", ou "parece que estava à espera que o filho viesse do estrangeiro, para morrer em paz".
Fixei-me nesta particularidade, tão ouvida nos dias de hoje e veio-me logo à memória o Senhor Adalberto.
O Senhor Adalberto era um velhinho de oitenta e seis anos, muito culto, lúcido e simpático, que eu visitava no lar de terceira idade, onde estava hospedado e depois, mais tarde, no hospital onde esteve internado vários meses até morrer.
Tinha seis filhos e filhas espalhados por esse mundo fora, que nunca se interessaram pelo seu bem-estar.
Um dia confidenciou-me que um desses filhos até lhe batera, quando distribuiu, por todos eles, todos os seus bens e a herança deixada pela falecida mulher.
Já no seu leito de morte dizia-me: "Não queria, nada, morrer. Por fora sou um velho caquético, mas a minha cabeça diz-me que o meu espírito vive e sinto-me um jovem. Não queria, nada, morrer. Consegue-me isso?".
Eu ficava sempre embaraçada, sem resposta.
O tal dia chegou finalmente. O Senhor Adalberto agarrou-se à minha mão e disse-me, mais uma vez, que não queria morrer.
"Se pensam que eu estou a resistir por causa de querer ver este ou aquele filho ou familiar distantes, estão enganados. Simplesmente, eu não quero morrer. Quero viver por mim e para mim. É uma treta se pensarem que morri consolado por ver esta ou aquela pessoa que já não via há muito tempo".
Fechou os olhos e largou-me a mão, ao mesmo tempo que repetia: "quero viver!", contrariando a tal máxima funerária de que os moribundos aguardam sempre por alguém que lhes é próximo e que vive distante, para partirem em paz.
Fiquei com a certeza de que todos eles partem contrariados, embora nas mentes dos que lhes são próximos habite aquela leve sensação de dever cumprido, que apazigua as consciências, só porque chegaram a tempo de os ver sucumbir.
Gosto muito de ler, de escrever e de sonhar.
Escrever tem altos e baixos.
Há quem escreva por puro prazer, há quem escreva para um público.
Procuro situar-me no meio termo, sentindo o prazer da escrita e a alegria de ter quem me leia.
Mas...
Escrever tem altos e baixos.
Como tudo na vida.
José Sócrates, desde que perdeu a maioria absoluta, chora-se e geme-se todo.
Desde a célebre "campanha negra" até às "forças ocultas", o seu discurso tem revelado um homem com medo, arrogante, isolado e desnorteado.
Parece um daqueles chefes de estado de um qualquer obscuro país africano, só faltando aparecer rodeado de feiticeiros da tribo, inventores de mezinhas para afastar os "maus espíritos".
Perante tal quadro, nada melhor do que acrescentar mais um assessor aos muitos que já tem.
No mercado nacional, talvez o bruxo de Fafe, agora tão na "berra", fosse o mais indicado.