A propósito de "Hipocrisia Estrunfe", numa das minhas missões em África, integrada numa ONG que presta assistência a crianças carenciadas, no Continente Africano, crianças essas, a maior parte delas orfãs com SIDA, que nunca tiveram a sorte de saber fazer sopa, por serem pobres, miseráveis e não terem a possibilidade de produzir nem de comprar todos os ingredientes necessários para o efeito, veio-me à ideia uma situação caricata que se passou durante aquele mês de Março, um dos mais quentes em África, que me faz recordar a actual situação económica e financeira que se vive em Portugal, que leva a que as crianças portuguesas, em geral, estejam a pagar pelos erros dos pais que se deixaram deslumbrar pela entrada na CEE, que permitiu que muitos pensassem que o "El dorado" iria ser um manancial eterno, que não teria custos gravosos, a longo prazo.
As pessoas deixaram de saber produzir, de saber poupar, de saber discernir, pois a entrada na União Europeia deslumbrou-os e o dinheiro fácil convenceu-os de que eram todos ricos e que poderiam esbanjar eternamente, aquilo que não produziam, não poupavam, nem pagavam.
Mas voltando à tal situação caricata, nessa missão estivemos quinze pessoas, cada qual com a sua especialidade.
Havia médicos, enfermeiros, tradutores, 2 advogados, um arqueólogo, um higienista oral e uma nutricionista. Passávamos os dias a tentar fazer por aquelas crianças aquilo que nos era possível, pois algumas delas já se encontravam em fase terminal e os recursos que tinhamos, eram quase nulos para aquela situação de grande carência alimentar e médica.
Um belo dia, fomos despertados por uma grande algazarra no acampamento. Eram algumas crianças que seguiam em festa, três indivíduos brancos, todos janotas, equipamento à maneira e farda a condizer, que se vieram apresentar como sendo engenheiros alimentares, que nós pensávamos ser de uma outra organização que nos ia render.
Pelo sotaque e pela bandeirinha pregada numa das mangas do colete, ficámos a saber que os três eram americanos.
O higienista oral e a nutricionista, portugueses, deliraram com o facto de eles serem engenheiros alimentares. Poderiam ajudar na produção e confecção de alimentos consistentes, à base de arroz, farinha de milho ou mandioca, leite e soja, para minorar a fome daquela gente.
Nós, portugueses, fomos junto ao rio, onde havia um terreno muito fértil, a imaginar, com um brilho nos olhos, a quantidade de arroz que poderia ser produzida ali, os legumes, o milho, etc..
Quando abordámos os americanos nesse sentido, a resposta foi surpreendente.
Suas Excelências informaram-nos que não pertenciam à organização de que estávamos à espera, mas que estavam ali, contratados pelo Governo daquele país, para ensinar, única e exclusivamente, os autóctones, a fazer rações para elefantes, que estão em vias de extinção.
Em Portugal, e por analogia, como as crianças também estão em vias de extinção, não vai tardar nada que lhes comecem a servir, nas cantinas escolares, rações para cão, "made in China".




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